Já uma vez tentei dar aqui
início a uma espécie de rubrica, então intitulada “fontes de inspiração”, onde pretendia dar a conhecer alguns
daqueles bons exemplos que felizmente persistem na política. Na verdade, nos
últimos tempos parece ser cada vez mais difícil encontrar verdadeiras fontes de
inspiração. Pelo contrário, florescem os exemplos mesquinhos, de quem vive da
política e não para a política, onde os interesses e ganâncias pessoais se
sobrepõem à defesa da coisa pública e o que verdadeiramente importa é manter a
permanência no poder, tirar algum proveito pessoal dos cargos que se ocupa,
explorar ao máximo o bem público, sem a mínima preocupação com a adoção de
métodos de boa gestão, transparência, sustentabilidade e bem comum.
Perante isto, entramos
numa era de desalento, desilusão e até alguma amorfia, a qual nos suga para o
desinteresse, para o não querer saber, para o deixar andar, para o são todos
iguais, com uma participação cívica e política cada vez mais diminuta e a
defesa dos nossos interesses deixada nas mãos de quem se revela incompetente
para tão grandiosa tarefa.
Confesso que, depois de
algumas quedas, por breves momentos (muito breves mesmo!), esta também me chega
a parecer uma opção aliciante, confortável mesmo. Para quê preocupar-me quando
ninguém parece dar a devida importância? Quando há dias em que acordamos e
temos a sensação de que os valores das pessoas andam todos trocados. Mas
depois, a convicção que me guia confirma tudo aquilo em que acredito. E
felizmente surgem exemplos, verdadeiras “fontes de inspiração” que me ajudam a
ter a certeza que é meu dever continuar a trabalhar e dar o melhor de mim todos
os dias.
Hoje trago o discurso de
tomada de posse do Dr. Rui Moreira, eleito Presidente da Câmara Municipal do
Porto nas últimas eleições autárquicas. Nele inspirou-me a sua postura humilde;
o saber reconhecer e agradecer o trabalho feito pelo anterior executivo; a
defesa do papel do poder local e da política de proximidade com os cidadãos; a
transparência e frontalidade de assumir em pleno discurso de tomada de posse os
acordos que pretende fazer com outras forças partidárias e o ter conseguido
reunir à sua volta um consenso e admiração provenientes de vários campos
ideológicos. Mérito de um movimento independente e mérito de um homem com uma
atitude desinteressada na política, com provas dadas de sucesso profissional
fora da atividade partidária e, principalmente, com uma enorme paixão pela sua
cidade. Felizmente não está sozinho, felizmente existem outros tantos que
diariamente trabalham em prol das suas comunidades. E que me inspiram, que me
ensinam todos os dias que é possível!

«Mais do que as obras, mais até do que a
exigência, o rigor e a transparência exemplares com que geriu os dinheiros
públicos que lhe foram confiados, o Dr. Rui Rio deixa à Cidade do Porto e ao
País um modelo de pedagogia democrática e cívica. Soube, como muito poucos,
interpretar o sentido mais fundo do interesse público e da coisa pública. E,
para isso, não hesitou quando quantas vezes foi necessário afrontar interesses
instalados os mais vários, que procuravam capturar, em benefício próprio, o
património que é, e só pode ser, de todos.
Acredito na importância nodal da
descentralização e do poder autárquico, numa perspetiva que, afinal, é de
modernidade e de adaptação necessária à evolução das nossas sociedades.
O poder local, e enquanto Presidente da
Câmara nunca deixarei de o reivindicar, gere melhor e decide melhor. Por
conseguinte, tem o direito e o dever de exigir mais competências, e tem o
direito de reclamar mais meios, lá onde (como, por exemplo, na habitação
social, no ensino e nas competências das polícias) já demonstrou que faz melhor
e melhor promove o desenvolvimento. E faz além disso melhor porque, estando mais
próximo das pessoas e dos Cidadãos, as sabe ouvir e cumpre aquilo que é a razão
de ser primeira e última de qualquer poder público: servir os Cidadãos,
melhorar a sua qualidade de vida, atender às suas necessidades e anseios
legítimos.
Nestes tempos perturbados em que se ouvem
vozes, nomeadamente do Governo, apelando às autarquias para que olhem para os
recursos e criem condições para a instalação de mais empresas e mais emprego;
nestes tempos perturbados em que nos dizem que as autarquias têm de reinventar
a sua missão e que o desenvolvimento não pode ser um problema só do Poder
central, é também necessário que essas vozes nos esclareçam, sem inúteis
ambiguidades, se estão disponíveis para transferir novas competências para as
autarquias, para que estas possam valorizar os seus recursos.»