Numa manhã de Sábado deste mês de
maio, manhãs que ultimamente mais parecem manhãs de agosto, acordei cedo e
rumei até à feira da ladra. Mesmo sem intenções de comprar nada, consigo
perder-me por horas neste lugar tão peculiar, nesta feira cheia de tesouros e
histórias, por onde deambulo por entre quinquilharias, roupas, brinquedos,
sapatos, móveis, eletrodomésticos e toda uma pequena multidão de vendedores,
artistas de rua, jovens que vendem as suas roupas usadas, hippies a vender “space
cakes” e touristas a passar em tuk tuk , com escaldões de primavera e máquina fotográfica na mão.
Uma feira onde podemos encontrar
desde as peúgas aos molhos e em promoção, às mascaras africanas, aos produtos
gourmet e regionais no mercado de Campo Santana e aos cães de loiça para
guardar a entrada de uma qualquer vivenda portuguesa.
E depois temos os meus preferidos,
os tesouros com história, ou seja, as velharias, onde a minha imaginação ganha
assas e por vezes até delira. Em que cozinhas ou salas de jantar terão servido
aquelas loiças? Imagino senhoras bem vestidas a beber um chá num qualquer final
de tarde, enquanto desabafam das maleitas da idade ou das “questões familiares”.
Quem terá sido a dona daqueles sapatos e que meninos terão brincado com tantos
carrinhos?
Descubro um carrinho de bebé
talvez com mais de um século e fico a pensar no bebé que deve ter crescido, constituído
uma família com história, história que levou a que aquele carrinho estivesse
ali, à venda numa rua do Campo Santana. Talvez essa família tenha viajado, com
uma mala de cartão como a que está mesmo ao lado do carrinho, e deixado os seus
bens para trás…
