É verdade, faço parte dessa tribo, desse grupo de privilegiados, que vivem à custa do Estado, dos dinheiros públicos, das contribuições de todos os portugueses.
Os funcionários públicos, atual bode expiatório preferido da nação, principais sanguessugas da despesa pública, verdadeiros parasitas que vivem a pintar as unhas ou jogar solitário pelas repartições e que se torna obrigatório exterminar para que o país possa voltar a viver tranquilamente na sua paz solarenga e bonacheirona!
Claro que concordo que se torna imperativo fazer uma reforma na Administração Pública do Estado (central e local); que muito provavelmente existem funcionários públicos a mais; que muitos dos departamentos da administração do Estado são verdadeiros reinozinhos, onde as chefias intermédias (um dia ainda faço um post só sobre as chefias da AP J) põem e dispõem e impedem que qualquer progresso, eficiência ou melhoria nas metodologias de trabalho sejam implementadas com sucesso, pois isso significaria o fim do seu pequeno feudo; que as avaliações de desempenho continuam a ser feitas de acordo com critérios como a antiguidade, a simpatia ou o baixar a cabeça perante os superiores, não se valorizando a verdadeira competência e empenho dos colaboradores; que a “velha” administração pública (o que não significa propriamente os funcionários mais velhos) ainda acha que o importante é picar o ponto das 9 às 5, conseguir “enganar” o chefe a fingir que se trabalha e não ser muito eficiente, nem dar nas vistas, senão os processos caiem-nos todos em cima! Sim, tudo isto é verdade! E a culpa, a culpa não sei, mas cá me parece que não morre solteira! A mim, cá me parece que atrás dos chefezinhos feudais, se encontram os pequenos ou grandes barões que, administração atrás de administração, parecem não ter coragem, ou será interesse, em mudar as coisas.
Mas neste cenário também acredito que existem funcionários verdadeiramente empenhados, que acreditam na verdadeira noção de serviço público, que se entregam às suas funções e desempenham as suas competências com brio, tendo a clara noção que estão ao serviço dos outros, ao serviço do cidadão e que aquilo que fazem é importante e necessário para o bem-estar da sociedade. Foi com esta noção de serviço público que entrei para a Administração Central do Estado, noção que já vinha dos estudos em Ciência Política e Economia Pública, e que me fez avançar para um concurso público, estudando dias a fio e saindo bem-sucedida numa prova com muitos interessados e sem possibilidades de cunhas (através de testes anónimos de escolha múltipla). Não, não me aliciava o empregozinho certo no Estado, o lugar certo para a vida, mas sim o facto de trabalhar numa função pública, tendo a minha pequena contribuição para o funcionamento da nossa sociedade, sentindo-me realizada por isso. Claro que também queria um emprego, uma perspetiva profissional para a minha vida, o meu ganho pão! Mas não me parece que fosse só isso, nem isso o principal! Ingenuidade, talvez!! Mas o facto é que ainda hoje, apesar e depois de tudo acredito neste ideal! Quase 8 anos passados, depois de duas promoções, com cortes nas remunerações que me fazem receber menos hoje do que no início; com extinções e fusões de instituições; com partidas e chegadas de chefes e colegas; com oportunidades ganhas e outras perdidas, continuo a acreditar na noção de Serviço Público e na utilidade dos funcionários públicos para o bom funcionamento da comunidade.
Se têm regalias e privilégios em relação ao privado? Uns terão, outros nem por isso! O que eles, o que nós precisamos é que surjam verdadeiros dirigentes, líderes, governantes, que entendam o ideal e a importância do serviço público, o funcionamento e os meandros do funcionalismo público e que, principalmente, tenham a coragem para enfrentar certos poderes informais instituídos e fazer a reforma da Administração do Estado necessária e urgente. Talvez os serviços prestados pelos funcionários do Estado sejam então valorizados e deixe de ser necessário ter atenção a questão da equidade!!


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